Crianças adotadas e ‘devolvidas’ aguardam novas famílias em RO


Irmãos aguardam novas famílias na Casa da Criança Francisco de Assis, em Ariquemes/RO.

Irmãos foram retirados da família biológica após tentativas de inserção.
Pais estavam envolvidos com drogas e prostituição.

"Como treinar o seu dragão" é o filme predileto do garoto de oito anos que sonha em ser bombeiro quando crescer. A irmã de sete anos, uma menina de olhos atentos, adora bolos, principalmente os que têm cobertura. Os irmãos estão acolhidos na Casa da Criança Francisco de Assis, em Ariquemes (RO), município a cerca de 200 quilômetros de Porto Velho. As crianças foram retiradas da família biológica e 'devolvidas' pelas famílias adotivas.
Enquanto aguardam novas famílias, o menino tímido fala que sente falta de ter um pai e uma mãe e que gostaria de ter uma casa e um gato. A menina é espontânea e vaidosa e diz que está feliz na casa. "Não gosto de cachorro, pois eles mordem a gente", diz a garotinha, quando perguntada se gosta de animais.
 
A presidente da casa, Paula Boni, conta que, quando chegaram pela primeira vez na instituição, o menino tinha dois anos e a menina um. Os pais das crianças estavam envolvidos com drogas e prostituição. Um ano depois, a mãe teve outra criança e tentou vende-la. Contudo, a polícia foi acionada e interviu na negociação.
Durante anos, houve tentativas de inserção dos menores na família extensa – avós maternos e paternos – juntamente com os pais, mas a situação de violência e negligência continuou acontecendo. "Foi um período complicado, pois as crianças ficavam neste vem e vai, até que a Justiça destituiu o poder familiar e colocou as crianças para adoção", lembra.
Depois disso, duas famílias se interessaram em adotar os irmãos. Uma família ficou com o menino e com a irmã menor, e a outra, com a menina do meio. "A Justiça não autoriza a separação de irmãos, mas, neste caso, as mães adotivas eram irmãs e, com isso, iriam manter o vínculo", explica Paula.
 
No entanto, passados seis meses, a família devolveu o menino, alegando que não houve adaptação, e formalizou a adoção da menina mais nova. Recentemente, a outra família também entregou a menina do meio, depois de um ano e meio de convivência. Neste período, as famílias estavam em processo de adoção para ter a guarda definitiva, conforme a presidente.
"As crianças não vêm com manual de instrução e não são objetos para serem devolvidas. Acredito que faltou acompanhamento familiar após desligamento do abrigo, pois as famílias precisam de apoio e orientação", enfatiza.
 
Maria ressalta que, durante a guarda provisória, o casal pode desistir da adoção. No entanto, depois de finalizado o processo e de terem a guarda definitiva, os pais são responsáveis pela criança. "A adoção é irrevogável. Porém, já vimos casos de pais, mesmo após ter sido finalizada a adoção, desistirem da criança. O que a jurisprudência tem adotado é responsabilização dos pais adotivos, através de uma ação por danos morais", expõe.
Sobre a devolução de crianças, a assistente social explica que inúmeros motivos podem levar os pais adotivos a tomar esta decisão. "São vários fatores, mas um deles é que os pais idealizam um filho e cada criança tem suas singularidades. O que acontece é que o filho real não corresponde às expectativas dos pais e aí começam as dificuldades", conclui.

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