Conscientização muda perfil da adoção!


Dados do CNJ mostram que número de aspirantes a pais que só aceitam crianças brancas caiu no Brasil
O perfil da adoção vem mudando no Brasil. Até pouco tempo atrás, ao preencherem o Cadastro de Pretendentes para Adoção, a maioria dos candidatos a pais adotivos faziam questão de bebês de pele clara. Nos últimos anos, porém, essa exigência vem sendo deixada de lado e o número de pretendentes à adoção que aceitam crianças negras e pardas cresceu. Dados do Cadastro Nacional de Adoção (CNA), da Corregedoria Nacional de Justiça, apontam que o número de aspirantes a pais que só aceitam crianças brancas caiu de 38,73% em 2010 para 22,56% neste ano. Já o número de candidatos que aceitam crianças negras subiu de 30,59% para 46,7% e os que aceitam crianças pardas cresceu de 58,58% para 75,03% no mesmo período.

O Paraná, de acordo com dados do CNA,é o terceiro estado brasileiro onde mais se adotou negros e pardos entre 2008 e 2016, com um total de 307 adoções. O Estado só fica atrás de São Paulo, com 413 crianças negras e pardas adotadas no período, e Pernambuco, com 333.

Advogada e presidente da Comissão de Adoção do Instituto Brasileiro de Direito da Família, Silvana do Monte Moreira atribui a mudança no perfil ao trabalho de adoção inter-racial feito há mais de 20 anos pela Associação Nacional dos Grupos de Apoio à Adoção. Hoje, no Brasil, são 136 grupos. "Por meio do trabalho desses grupos, as pessoas passaram a entender que o filho não é escolhido, o filho chega, assim como chega o filho biológico. E ele pode chegar branco, pardo, negro. A gente trabalha muito essa inclusão porque a adoção visa oferecer famílias para as crianças que não têm e não oferecer filhos para aquelas famílias que por um motivo ou por outro ainda não puderam gerar ou perderam."

Silvana Moreira diz que o desafio atual é estimular a adoção de grupos de irmãos e de crianças com problemas de saúde. "Hoje, não é mais necessário trabalhar a inclusão de crianças negras porque nós já temos pessoas habilitadas em número suficiente buscando um bebê negro, uma criança negra até 5 anos de idade."

REALIDADE
"Existe a criança idealizada, mas a realidade dos abrigos é diferente. A criança branca, sem nenhuma doença, de até um ano de idade, existe, mas é muito rara", destacou a juíza substituta da 1ª Vara da Infância e Juventude de Londrina, Isabele Papafanurakis Ferreira Noronha. A divergência entre o perfil desejado pelos candidatos a pais adotivos e a realidade dos abrigos é a razão pela qual a fila da adoção nunca chega ao fim. Nos abrigos de Londrina, existem atualmente 87 crianças e adolescentes à espera de uma família e 200 casais habilitados. A maioria dos abrigados tem mais de 5 anos de idade ou são grupos de irmãos. "O número não bate porque as pessoas que querem, querem crianças diferentes daquelas que precisam de um pai e de uma mãe. A gente tenta sensibilizar os casais a mudarem o perfil, mostrando a realidade das crianças que estão disponíveis para adoção."

Apesar de os pretendente estarem mais flexíveis, a juíza afirma que a grande maioria dos casais ainda desenha um perfil muito restrito, no qual destacam a preferência por crianças de zero a 1 ano de idade. "A maioria ainda quer um perfil bem limitado de criança, com no máximo 3, 4 anos, pele clara, sem doença ou com doença tratável. Isso não significa que não houve uma melhora, porque hoje temos casais que se habilitam, aceitando grupos de irmãos, crianças maiores de 8, 9, 10 anos."

Durante o processo de habilitação, os candidatos a pais passam por curso e são convidados a visitar a realidade do acolhimento. "O casal tem o direito de chegar aqui e dizer que quer um recém-nascido ou uma criança de até 1 ano, mas ele vai ter consciência de que o período de gestação dessa adoção vai ser muito maior. Para esses casais que querem esse perfil de criança, o tempo de espera tem sido de oito anos. Agora, casais que aceitam crianças de até 4 anos, independente da cor, já diminui pela metade o tempo de espera. E para crianças acima dos 10 anos, você praticamente habilita e o casal já é pai e mãe", explica a juíza.

Entre os 200 habilitados que aguardam por uma adoção em Londrina, o casal que espera há mais tempo está na fila desde 2009 em razão do perfil restrito, que estabelece uma criança de até 6 meses de idade.

"As exigências dos pais mudam bastante durante o período de conversa. A questão da cor já está bem decidida, já está ficando para trás. A barreira maior hoje é a questão da idade, da doença e encontrar pessoas que aceitam adotar grupos de irmãos", disse o presidente do grupo de apoio Trilhas do Afeto, de Londrina, José Wilson de Souza.



Fonte: Folha de Londrina.

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