Um ato de amor em dose dupla!

Família completa:
Os irmãos Arthur e Otavio recebem o carinho dos pais
 Marcília e Marcus

Adoção de irmãos:
casais que fizeram essa opção falam sobre a experiência
 de ganharem dois, e até, três filhos de uma só vez.
“O Arthur e o Otavio não nasceram de nós, nasceram pra nós!”. Essa é a frase que a recepcionista Marcília Leite Arantes, de 32 anos, e o auxiliar de tráfego, Marcus Vinícius Silva Arantes, 37 anos, mais usam para justiçar o ato de amor em dose dupla que tiveram, ao optarem pela adoção conjunta de irmãos. Os dois fazem parte de um perfil de casais não muito comuns para adoção que, antes mesmo de realizarem o sonho de serem pais, priorizaram o não rompimento definitivo dos vínculos fraternais entre as crianças. Ontem foi comemorado em todo o país o Dia Nacional da Adoção.
Conforme conta Marcília, ela e o marido são casados há sete anos e, desde a época do namoro, já conversavam sobre a possibilidade de terem um filho gerado por ele e outro adotado, ou de coração, como preferem se referir. Mas, após tentativas para engravidar e diante de tantas dificuldades, mesmo com medicamentos e tratamentos, eles resolveram dar um basta nas frustrações e deram inicio ao processo de adoção.
– Se a gravidez acontecesse, ok. Ficaríamos muito felizes. Mas não foi isso que aconteceu e demos início a nossa gestação de coração, através da qual o nosso perfil escolhido era uma criança de 0 a 4 anos,independente de cor e sexo. Quase dois anos iam se passando e nada do tão sonhado telefonema da vara da infância não acontecia. Foi aí que, apesar de todo o nosso medo e insegurança resolvemos que íamos mudar nosso perfil para grupo de irmãos. A certeza era só uma: muito melhor ser mãe de dois do que não ser mãe – conta a recepcionista.
Segundo Marcília, dois meses após terem mudado o perfil no Fórum da cidade, o tão esperado telefone tocou com a assistente social informando que os filhos do casal haviam chegado. Ainda surpresa, ela e o marido ficaram nervosos com a possibilidade de ganharem dois filhos, de uma só vez, e muito inseguros com relação às condições financeiras e até mesmo com a mudança de rotina da família.
– Liguei para os meus pais, que também são pais por adoção, e eles disseram o que eu precisava ouvir: ‘Minha filha você esperou tanto para ganhar seus filhos,vai buscá-los que nós te ajudamos no que for preciso’. Fomos a Resende conhecer os meninos que, a princípio, seriam o Pedro e Josué e que naquele momento estavam no médico. Enquanto eles não chegavam fomos conhecer o abrigo e ao entrarmos num dos quartos onde vimos os nossos dormindo. Foi amor à primeira vista e, na semana seguinte, ligamos pra dizer que íamos ser pais do Arthur e do Otavio, que também estavam para adoção – recorda Marcília, ao ressaltar que ela o marido chegaram a ter vontade de adotar os outros irmãos.
Mudança de vida
Daquele momento em diante Marcília e Marcus tiveram certeza de que a vida dos dois iria mudar. Em menos de uma semana era preciso dar conta de roupas, fraldas para o menino de dois anos, brinquedos, decoração do quarto e também do chá de roupinhas que serviu para reunir amigos e familiares e arrecadar roupas e calçados para os meninos.
– Junto com nossos filhos também chegou um monte de pessoas generosas, familiares, amigos e desconhecidos que adotaram eles junto conosco e, de repente, a casa estava cheia de roupas, brinquedos, livros e amor. A casa que há tempos vivia triste e calada tomava outra atmosfera, outra cor, outro cheiro. Tudo mudou! para melhor! Desde que vieram eles sabem a história deles e dizem que nasceram do meu coração – conta, emocionada, a mãe dos meninos.
Marcília e Marcus fazem questão de alertar aos casais que hoje estão na fila de espera que, quanto mais se estreita o perfil, maior o tempo de demora em conseguir a adoção, podendo a chegar até 8 anos. Conforme ressaltam, o mais importante para os casais que vivem a dificuldade em engravidar, que passam por dia tristes e solitários é que tenham coragem de mudar a própria história.
– O processo de adoção é longo. Então, quanto antes derem entrada, tudo tende a acontecer mais rápido. Nosso conselho é para que abra o coração a adoção tardia e a grupo de irmãos. Muitos estão lá, nos abrigos, esperando por pessoas como vocês. Temos todas as dificuldades como qualquer casal, para educar, para lidar com as birras e travessuras, afinal eles são crianças, mas tudo é tão gratificante, tão especial que tristeza com eles por perto, não dura um dia – destaca a recepcionista, ao afirmar que ela e o marido estão desarquivando o processo de adoção para, em um futuro próximo, adotarem uma menina.
Em dose tripla
Casados há seis anos, os professores Júlio Francisco Alvarenga da Silva, de 46 anos, e Solange Nascimento da Silva, de 40 anos, a princípio pretendiam ter um filho e depois adotar mais um ou dois. Mas, devido a dificuldade que estavam encontrando para engravidar, optaram por aumentar a família apenas com os filhos adotivos. Conforme conta o professor, após a decisão, ele e a esposa buscaram informações e descobriram que todo o processo ocorre via Vara de Família no fórum local.
– Procuramos então a equipe, que nos instruiu sobre documentação, assim como quais seriam as fases do processo. Ainda carregávamos determinados preconceitos sobre origem, caráter, idade, etc, que foram se quebrando ao longo do processo adotivo. Descobrimos que as pessoas que querem uma menina branca, de até dois anos, vão ficar longos anos na fila, que pessoas que querem apenas um bebê, independente de sexo ou etnia, também vão aguardar por vários anos, e que as crianças que passam de três ou quatro anos, principalmente as negras e as que são grupos de irmãos, poderão jamais ser adotadas. E é isso que, infelizmente, explica uma fila gigantesca de candidatos e várias crianças sem família – destaca o professor.
De acordo com ele, a fase de reuniões com outras pessoas foi fundamental para que descobrissem que a história dele e da esposa é semelhante à história de outras pessoas e, diferente do que muitos imaginam. Conforme afirma, ao optar em adotar uma, duas ou três crianças, o intuito não é fazer caridade, mas sim constituir uma família. Segundo Silva, também durante o processo foi possível avaliar que grande parte das crianças que têm irmãos são deixadas para o final ou a família é separada.
– Imaginamos o quanto isso deve ser difícil para as crianças, pois o único resquício de família permanece nos irmãos, que podem ser separados, ficando normalmente o mais velho com cada vez menos chances. Então, após várias conversas, decidimos modificar nosso perfil de escolha, que era apenas duas crianças para um grupo de até três, admitindo irmãos, sendo o mais velho até seis anos de idade, sem restrição por sexo ou etnia – explicou.
De acordo com o professor, assim que entrou na fila nacional ele e Solange tiveram conhecimento que havia um grupo de três irmãos de Volta Redonda que brevemente estaria apto para adoção. Nesse momento, sem ter qualquer informação sobre as crianças, deu-se início outro processo: a ansiedade em proporções gigantescas.
– Nesse interim, começamos a receber ligações dos fóruns de várias partes do Brasil informando que tinham grupos de irmãos já aptos, mas decidimos aguardar por um tempo o processo daqui se finalizar. Fizemos o correto, pois o processo de aproximação demandaria uma viagem para conhecer, se adaptar e dar entrada no processo para guarda provisória das crianças. Isso ocorrendo aqui em nossa cidade foi muito tranquilizador, pois pudemos realizar um processo mais seguro. Conhecemos três meninos apaixonantes, ativos, espertos e muito unidos. Bruno, com 7 anos, Nycolas, com 6 e Kayo com 2, que já começaram a se colocar em nossas vidas de forma como se eles sempre tivessem feito parte dela – ressalta o professor, que já possui dois filhos de outro relacionamento.
De acordo com Silva, inicialmente ele e a mulher tiveram autorização para visitar o abrigo, sem que as crianças soubessem que eles eram canditados a adotá-las. Logo, o casal começou a aproximação e a equipe do abrigo sempre acompanhava e anotava as visitas, além de avaliarem a reação das crianças com a presença dos dois. Após 20 dias o casal foi chamado ao fórum para conhecer o histórico das crianças e confirmar ou rejeitar o andamento a aproximação. O professor recorda que esse foi um momento crítico, tendo em vista que ele a esposa deveriam decidir o futuro do resto de suas vidas.
Após uma análise sobre gastos, inseguranças e medos, o casal chegou a conclusão de que seguiria com a aproximação e passaram a levar os meninos para casa nos finais de semana, feriados e mesmo durante a semana.
– Começamos a inseri-los em nossas rotinas até então totalmente despreparadas para crianças, até que chega o dia de trazê-los definitivamente. Início de novembro de 2014. Preparação de quarto, compra de roupas, móveis e brinquedos, mobilização de colegas de trabalho e familiares, que já estavam ansiosos esperando os meninos. Começamos então outra história, com adaptação de horários, de finanças, de avanços e dificuldades como todas as famílias. A nossa diferença é que tivemos trigêmeos com idades diferentes – brinca o professor, ao recomendar que todos os pais que visam a adoção optem em passar pelo meio legal, sempre levando em conta que ilegalidade é condição perfeita para que o processo dê errado.
Por Roze Martins ( Especial para o Diário do Vale)

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